sábado, 28 de novembro de 2009

David Silveria

Não sei. Há talvez um assombro diante dos olhos de alguém que aconteça de repente... Então, essa pessoa vai embora, se cala, decide que é hora de uma grande transformação. O que acontece na mente de um artista que decide abandonar a arte? Se soubéssemos, talvez descobríssemos o quão amarga ou doce a vida realmente é.

David Silveria foi baterista exímio do Korn, uma das principais bandas de new metal que surgiram por aí. Também modelo, era a alegria e o tesão de nossos olhos, uma pausa no caos que o som da banda pretendia nos mostrar. Um instante de luz. Até que em 2006 resolveu abandonar a carreira, não por brigas com os companheiros, tampouco pra formar outra banda, virar ator, seguir como modelo, nada disso. David montou um restaurante de sushi e agora quer a vida longe dos nossos olhos, e daquela tal de indústria. Mais grave: ele vendeu ou deu embora todos os seus instrumentos musicais, não sobrou nada.

O Korn surgiu em 1993 com bastante peso no som, mas já flertando com uma cantoria falada, apontando para a febre do Nu-metal, embora, ao invés de jalecões de gangsta rappers, flertassem um tanto com a estética gótica dos anos 80 — talvez herança inevitável e imediata da década que nem tinha acabado direito. Tudo isso quase fez a banda ser levada a sério. Eles até despertaram um pouco a atenção do público queer, pois além do vocalista “levar jeito”, apareceram com o clipe de A.D.I.D.A.S (All day I dream about sex), no qual o vocal revelava uma lingerie por baixo da roupa ao fim. Além da mais do que ambígua Faggot, faixa do primeiro álbum, cuja letra insinua um garoto se sentindo discriminado, com alguma crise de identidade sexual.

Ainda havia a história alardeada do nome da banda. Korn é “milho” mal escrito, e o nome surgiu de uma conversa de amigos em que alguém contou que, ao fazer uma cunete noutra pessoa, acabou com um grão de milho na boca. Sacaram? Povo de nu-metal não faz a xuca...

Mas depois disso a banda cresceu, cresceu muito, ganhou prêmios, aparecia na MTV direto. A música começou a ficar fraquinha, meio adolescente (por que eu implico com adolescentes?), meio sem ritmo. Os caras deixaram as polemicazinhas de lado, apareciam na TV com mulher e filhos. Cunete e lingerie, pelo jeito, nunca mais. Até fizeram um desses acústicos que hoje são tão batidos. Nesta época que David saiu.

Ele costumava dizer que entendia as letras da banda, compostas pelo vocal, mas não se identificava exatamente com elas. Sua vida era feliz, não tinha do que reclamar. Então algo aconteceu, desses assombros repentinos e transformadores. David não quis largar a felicidade.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Rodrigo Curi

Rodrigo Curi é guitarrista do MopTop, uma das bandas que mais ouço no momento. Das brasileiras da atualidade, é uma das poucas que se destacam, com sua sonoridade moderna e dançante, e suas letras de sensibilidade e perspicácia bem charmosas. Pois bem: o moço é o entrevistado da vez (sim, sim, meu caros, este blog alça voos), e fala um pouquinho sobre o trabalho e o universo da banda. Relaxem e leiam.

CdoRock: No Som Brasil, da TV Globo, em homenagem ao Renato Russo, vocês foram apresentados como um banda de “indie rock”. Este não é um termo que hoje soa um tanto vago? O que seria exatamente o estilo indie rock?

Rodrigo: Aqui no Brasil o pessoal mistura tudo. Costumam chamar banda indie aquelas que tocam rock básico e não têm uma preocupação tão grande em se encaixar no padrão exigido pelas grandes mídias. Eu nunca me preocupei com esses rótulos... acho que esse tipo de coisa acaba limitando a criatividade da banda.


CdoRock: Fãs do indie rock parecem mais voltados para bandas internacionais, enquanto fãs de rock nacional parecem não preferir o tal indie. É difícil formar público para uma banda de indie rock cantado em português?

Rodrigo: Fazer rock em português é bem mais complicado sim, mas acho que o público de “indie rock “ está mais voltado pro rock gringo por conta da oferta, que é muito maior. Isso vale pra qualquer tipo de rock.

CdoRock: Há quem os compare aos Strokes e até aos Los Hermanos. Essas são realmente influências?

Rodrigo: São algumas. Sou fanático por Los Hermanos e muito fã de The Strokes, mas minhas maiores influências na guitarra são os caras do blues e rock clássico, como Hendrix, Page, Clapton , BB King e Nokie.


CdoRock: Antes, vocês tinham uma banda chamada DeLux, com músicas em inglês. Por que a transição para álbuns com letras apenas em português?

Rodrigo: Não estava fazendo muito sentido fazer músicas em inglês no Brasil. Era uma tarefa mais fácil, mas a gente ficava realizado de verdade quando conseguia fazer uma coisa legal em português. Abandonamos o nome Delux porque havia muitas bandas com esse nome, e como o trabalho estava ficando sério, achamos melhor usar um que fosse só nosso.

CdoRock: Vocês estão para lançar um EP com os antigos sucessos em inglês, não é isso? Qual a previsão de lançamento e por que retomar esse caminho? Alguma ambição de carreira internacional?

Rodrigo: Existem planos pra brincar lá fora sim. Já rolaram alguns convites, e a gente tá pensando em aceitar... Esse EP promete muita briga dentro da banda. Escolher as músicas vai ser o mais complicado, pois temos material pra fazer uns 3 discos em inglês...

CdoRock: E pro próximo álbum, já tem alguma coisa pronta?


Rodrigo: Nada. Só alguns riffs, e alguns rascunhos.

CdoRock: Como é seu processo de composição, a partir das letras, ou há letras que também são criadas para os seus riffs?

Rodrigo: O principal compositor do Moptop é o Gabriel. Geralmente ele chega com um rascunho, e a banda vai lapidando até ficar ok. Letra é sempre um parto. Geralmente as músicas nascem em inglês “embromation” e nos 45 do segundo tempo ganham uma letra em português.

CdoRock: Parece-me que o rock jovem a fazer mais sucesso hoje é o Emo, liderado musical e esteticamente por bandas como a Fresno. Seria a Moptop uma banda mais adulta, de pouco apelo adolescente?

Rodrigo: Não sei se o rock tem que ser adulto... Isso foi um elogio, né? Só faço o que gostaria de escutar por aí...

CdoRock: Com a cada vez maior visibilidade da banda, como ficará a questão do download gratuito das músicas?

Rodrigo: Nosso contrato com a Universal Music não permite esse tipo de distribuição, mas é difícil brigar com a Internet. Sempre vai ter alguém, na melhor das intenções querendo espalhar seu som por aí.


CdoRock: No primeiro post do seu blog sobre as guitarras que usa na banda, você citava “a única que ainda não havia mexido”. É um aficionado por guitarras? Há muitas no seu acervo? Alguma raridade?

Rodrigo: Quem olha o blog acha que eu tenho um monte de guitarras caras, mas não é verdade... eu gosto de garimpar instrumentos baratos e com potencial, reformar e fazer alguns shows... depois perde a graça e eu passo pra frente. Raridade mesmo só uma Univox Hi Flier de 76.

CdoRock: Você é artista gráfico, e inclusive é seu o logotipo da Moptop. Faz muitos trabalhos ainda nessa área ou a banda já ocupa todo o seu tempo e paga todas as suas contas?

Rodrigo: Faço sim. Sou formado em desenho industrial, adoro a profissão e ela paga grande parte das minhas contas sim. Não largo nem nas épocas mais movimentadas da banda.

CdoRock: Embora o blog O Caralho do Rock tenha leitoras mulheres, as bandas ou artistas são sempre abordados sob algum viés gay. É esquisito para você ou para a banda falar especificamente para esse público?


Rodrigo: Não. Pra mim não faz diferença.


domingo, 4 de outubro de 2009

Lucas Silveira

Ele é O cara. A Fresno, sua banda, é um dos pilares do rock brasileiro atual. Talvez isso soe um pouco triste para alguns, mas é a verdade, e a alegria de muitos outros. A música emo já é o fenômeno jovem mais importante da década, e a vertente musical mais significativa. Não é à toa que eles são o artista do ano da MTV.

De quê? De onde? É o que perguntam os mais azedos, como eu, inclusive. Da MTV, oras, ainda a principal referência de cultura jovem do país. Jovem. Bem jovem, adolescente mesmo, coisa de 12, 14, até uns 16 anos. Os indies já eram, são coisa do passado, ou desses velhos de vinte e tanto ou trinta e poucos. Quem liga pra eles? Velhos, sem importância. Funk, gangsta rap, pagode, axé, Cláudia e Ivete, tadinhas, isso aí nem cultura é, perdeu esse status faz tempo, se um dia o teve. No máximo é cultura de gente tida como burra ou pobre, o que também não tem importância. Metal, punk, MPB, coisa de velho, nem existe mais. Às vezes surgem uns surfistas, uns skatistas, umas coisas indefinidas como a Pitty, meio emo, meio qualquer coisa, mas é o Lucas quem está no topo, e tudo o que ele representa.

A Educação no país está falida, talvez só existam arruaceiros, putas e malcriados nas escolas. Talvez só tenha gente burra lá. Gente estúpida, que cultive valores tradicionais e consumistas, que fortaleça a mídia e a aparência, que acredite em Deus, na religião, que fomente o bullying, e só ouça músicas que falem de amor ou sexo, sempre de maneira vulgar, alimentando estereótipos e preconceitos. Não sei se sabe quem é Sarney, Marina Silva, Dilma, Ciro, ou se tem uma opinião formada a respeito deles, alguma opinião que difira da insinuada pela imprensa. Essa gente é adolescente e boa parte ouve emo.

É a impressão que eu quase sempre tenho, eu, que já sou velho. No entanto, eu não sei o quanto o emo pode ser realmente ruim. Convivo, profissionalmente, com alguns adolescentes que curtem esse lance e percebo que, tirando Fresno e NX Zero, as bandas mais badaladas são um tanto independentes, de pouca projeção, o que faz a cena não ser tão óbvia e esses jovens conviverem um pouco com as mazelas da indústria e com as questões fama/qualidade, popularidade/importância. É saudável curtir bandas que não são famosas, e quem sabe até xingar as famosas de modinhas. Bandas independentes, “injustiçadas” pelas mídias, nos acalentam ideologias, e nos despertam o senso crítico. Mesmo que elas sejam emo.

Eu não vejo diferenças musicais entre uma Fresno e uma Hevo 84 ou 35ml, pra mim é tudo a mesma coisa, e acho o fim que o “screamo” seja usado pra lamúrias ralas, sem poesia, como no caso da banda Glória. Em tempo: o amor não é o problema, nem a tristeza, nem mesmo a futilidade, o hedonismo, a franjinha, o problema é unicamente a qualidade das letras e das músicas. Várias bandas até tocam bem, mas as letras e os vocais são bem ruinzinhos. Alguns vocais só. Mas são essas bandas as donas da cena, do rock de massa, da estética moderna, da própria modernidade, o símbolo da adolescência. Talvez eu os ache ruim porque estou velho. Em tempos em que a Madonna é chamada de múmia aos 50 anos, e ironizada por ainda querer cantar e não sair de cena logo de uma vez, em tempos em que Chorão é quase o novo dinossauro do rock, eu, do alto dos meus 26 anos, não tenho condições de entender e admirar a música que um jovem de 15 ouve. 11 anos é um abismo.

Talvez isso não seja ruim. Tudo passa rápido mesmo, mudanças precisam acontecer. E a adolescência não existe para ser compreendida, muito menos admirada pelos mais velhos. Um adolescente respeitado por um tiozinho não tem importância. Não existe no seu tempo.

domingo, 6 de setembro de 2009

Henry Rollins

Se um dia eu fizer uma lista dos dez rockstars mais fodas do Caralho, creio que Henry será um sério candidato. Primeiro, porque fez parte de uma das bandas punks mais importantes dos anos 70 e 80, o Black Flag, segundo porque é um dos raros roqueiros de versatilidade musical positiva, e terceiro por ser uma das personalidades mais excêntricas da sua cena. Tem ainda os seus atributos físicos, ainda hoje, aos quase 50 anos.

Ele é aquariano e se chama Garfield – Henry Lawrence Garfield –, nasceu em Washington e, por ser um menino mau, foi jogado pela família na The Bullis [bullying?] School, paraíso disciplinador de pestes. Lá começou a escrever, e suas primeiras estórias eram sobre como explodir a escola e matar os professores. Tempos depois, formou uma banda punk.

State of Alert foi sua primeira banda, durou pouquinho e lançou apenas um EP, No Policy, em 81. Neste mesmo ano, integrou a Black Flag, substituindo o vocalista, que queria se tornar guitarrista. A Black Flag surgiu em 76, e foi um dos primeiros grupos punk a flertar com outros estilos, como o Metal e o Jazz. Aliás, Henry foi responsável por parte significativa dessa versatilidade, introduzindo à banda inclusive o “go-go”, batida sincopada do funk criada por Chuck Brown, o que causou hostilidade de alguns fãs, que também não curtiam muito o jeito de Rollins nos palcos.

Em 86, o sonho punk acabou e o nosso rocker daddy formou a Rollins Band logo depois, em 87, cuja trajetória se esticou até 2006. Essa banda já era uma mistura de estilos, bem ao jeito de Henry, e não raro é definida apenas como “rock alternativo”. O primeiro disco de estúdio é Life Time, de 87, e o último é Rise Above: 24 Black Fag songs to benefit the West Memphis Three, de 2002, com a participação de vários outros vocalistas. Duas de suas músicas muito populares são Liar e Low Self Opinion:



Além da música, Henry se destaca por ser um artista multimída, atuando em programas de rádio, tv (ele até participou do trash Jackass), e vários filmes. Entretanto, destaco seu trabalho com audiolivros, o moço tem vários e até excursiona por aí apenas para “falar” para o público. É um misto de poesia, crônicas faladas, pensamentos soltos e ativismo político.

Henry é bastante ativista, diga-se de passagem. Mas, para além das críticas aos problemas que os EUA sempre tiveram, é muito famoso seu trabalho a favor dos direitos dos homossexuais. Henry bate tanto nessa tecla que, claro, sua sexualidade já foi questionada. O poeta punk da palavra falada afirma sua heterossexualidade enfaticamente, e penso que mundo é esse em que se é simplesmente impossível que um homem hétero lute pelos direitos dos gays. Não vou negar que se trata de um fato insólito, afinal quando a arte aborda a homossexualidade de uma maneira que não seja jocosa ou preconceituosa, é muito provável que o artista seja gay. Existe uma limitação grande para que homens hétero manifestem tanto desprendimento, o que é bem triste. E o preconceito vem de todos os lados, muitas bichinhas desconfiariam dele. Até hoje, se não muito me engano, apenas mulheres hétero falam a favor dos gays, até para serem alçadas ao patamar de diva, e conquistarem um prestígio que só a estética homo pode dar. Madonna, Cher, Kylie Minogue e até a nossa Elke Maravilha que o diga. Mesmo os artistas homossexuais são mais cautelosos e morrem de medo do “levantar bandeiras”. No Brasil então, nem se fala.

Henry é um homem corajoso, e, embora eu não saiba nada de sua vida pessoal, se já teve namoradas, se é casado, ou se já transmitiu o legado de nossa miséria a alguém, gosto de acreditar que ele é sincero quando fala de si. É bom saber que ao menos um homem hétero, em toda a história da música, tenha se dignado, a despeito de qualquer coisa, a se pronunciar favoravelmente com tanta insistência e dedicação sobre um assunto que, neste nosso mundo tão imbecil e violento, pode lhe custar a tão afagada reputação.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Kent James (a.k.a. Nick Name)

Meu Caralho, tão lindinho, aos poucos engatinha com mais firmeza. Além de um canal no Youtube, ele agora apresenta sua primeira entrevista internacional. Tá, meu bem? É com Kent James, aquele que um dia foi Nick Name. O moço aceitou conversar um pouquinho comigo via e-mail e até mandou fotos para serem publicadas. Tentei saber um pouco mais sobre o fim da sua carreira queercore e também sobre alguns pontos-de-vista a respeito de suas canções daquela época. No entanto, Kent se mostrou de poucas palavras e se recusou a responder três das perguntas. À minha insistência, disse apenas que "não sabia como respondê-las" e "esperava que eu entendesse". Quase me fez sentir uma Marília Gabriela diante da Madonna, não fosse Kent bem mais gostoso e simpático que a rainha do pop. Suas frases curtas apesar de tudo são esclarecedoras e demonstram bem o perfil do cantor e a fase que vive – talvez uma maturidade que tenha feito do punk algo pequeno e não mais necessário. É a vida.

A versão original da entrevista está disponível integralmente no Youtube (The english and complete version of interview is on Youtube).

CdoRock: Definitivamente, por que "Nick Name" acabou?
KJ: Eu nao sinto mais a necessidade de um alter ego pra fazer o trabalho sujo pra mim.

CdoRock: Existe alguma possibilidade da volta de Nick Name and The Normals?
KJ: "The Normals" vivem em L.A. e eu vivo em San Francisco agora. Eu curti trabalhar com outros companheiros de banda por aí nesses últimos anos... e estou interessado e procurando trabalhar com novos músicos por aí no futuro.

CdoRock: Quais são seus projetos atuais?
KJ: Acabei de lançar alguns dos meus vídeos no Youtube pela primeira vez. Meu clipe do filme "Hellbent", e o vídeo da minha "I fucked your boyfriend"*.

[*Após a entrevista, o vídeo de I Fucked your Boyfriend foi censurado pelo Youtube. Mas pode ser visto no site do Kent]

CdoRock: Kent James é um artista queer também?
KJ: Nick era queer. Kent é gay.

CdoRock: Sua proposta era um tanto nova. "Hardcore gay de pegada pop", que fazia de Nick Name mais divertido e acessível que outras bandas queercore. Foi muito difícil sobreviver com essa proposta?
KJ: Meu senso de humor está definitivamente naquelas canções do Nick Name. Eu não poderia sobreviver sem ele**.

[**"without my funny bone", no original - nome popular do nervo ulnar, que fica próximo ao cotovelo e causa sensação de choque quando sofre uma pancada contra o úmero, osso que vai do cotovelo ao ombro. "Úmero" em inglês é "humerous", sonoramente próximo de "humorous" (cômico), daí a expressão idiomática ("osso engraçado", em tradução simplória). O osso e o nervo são confundidos como uma só coisa, mas não são. O "funny bone", "responsável" pelo humor, é até tido como o osso que nunca quebra - justamente porque não é um osso ;) ]

CdoRock: Algumas atitudes e letras do Nick Name insinuavam uma certa heterofobia. Você acredita ser esse o caminho para uma plena cidadania gay?

CdoRock: Sua música também fala sobre o tipo musculoso do gay moderno. Não acha que isso alimente estereótipos?

CdoRock: Você já deu declarações contra o "padrão hétero de vida". É impossível para os gays viverem seguindo esse padrão? Poderia falar sobre como os gays deveriam viver?

[Kent James não quis responder às três perguntas. Limitou-se a um "No Comment"]

CdoRock: Na época do Nick Name, você recebeu algum retorno de alguma banda/artista famoso?
KJ: Lemmy do Motorhead veio a um dos meus shows em Holywood e eu o encontrei posteriormente. C.C. de Ville do Poison foi o primeiro a me parabenizar depois da minha performance de Like Virgin no tributo à Madonna no Teatro El Rey. Ru Paul e eu nos tornamos amigos durante aquela época e ele/a foi gentil o bastante pra me aconselhar por um tempo sobre o show business.

CdoRock: Qual a principal diferença entre Nick e Kent?
KJ: Nick é mais gay que Kent.

CdoRock: Como você vê o governo Obama para os gays?
KJ: EU ADORO OBAMA e acredito que ele nos ajudará mais que nos machucará.

CdoRock: O que tem ouvido atualmente? Alguma banda queer?
KJ: Tenho ouvido Glen Campbell

CdoRock: Como seus fãs podem conseguir sua música? Existem mp3s gratuitas pra baixar?
KJ: Os downloads de minha música mais popular estão no iTunes.

CdoRock: Você realmente está namorando o astro pornô Logan Mccree? Como o conheceu?
KJ: Logan e eu não estamos namorando. Eu o conheci através do diretor do meu vídeo de "Just Cuz". Ele nos contou que pintava, então o deixamos soltar seu lado artístico simultaneamente enquanto gravávamos o vídeo. Acho que sua arte se revelou maravilhosa.

CdoRock: Você é tão gostoso... Faria pornô?
KJ: Obrigado. É muita gentileza sua dizer isso, mas não estou interessado em fazer pornô.

CdoRock: Pra terminar, você já fodeu o namorado de alguém?
KJ: Minha música "I fucked your boyfriend" é realmente apenas eu e minha GRANDE boca tendo alguma diversão. Não é pra ser levada tão a sério. É punk rock!

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Roberto Carlos

Um dos responsáveis pela explosão do rock no Brasil, Roberto Carlos é hoje o artista latino com mais discos vendidos, o cantor brasileiro que mais vendeu discos no mundo, o maior cachê do país, o rei da música popular brasileira, o rei da juventude, como apontou o faro ligeiro de Chacrinha, o nosso Elvis, como bem definiu o produtor musical Carlos Imperial, nos idos anos 60.

No final dos anos 50, Roberto lançava seu primeiro compacto, João e Maria / Fora do Tom (59), bem antenado à música jovem que explodia na época. Antes, em 1957, integrava a banda The Sputniks, junto com Tim Maia, que logo abandonou o projeto. Virou também “príncipe da bossa nova” em 61, com Louco Por Você, seu primeiro álbum, um fracasso comercial hoje renegado (alardeado como uma “imitação de João Gilberto”) e verdadeiro diamante em sebos. Mas foi em 62, com Splish Splash, que tudo o que ele é, e tudo o que conhecemos, começou.

Daí uma verdadeira enxurrada de sucessos: Parei na contramão, É proibido fumar, A namoradinha de um amigo meu, Eu sou terrível, Quero que vá tudo pro inferno, todas símbolo de uma juventude e um movimento que desabrochava, o Iê iê iê, o velho rock’n’roll em versão tupiniquim, influenciado pelos americanos e ingleses, em especial pelos Beatles, cujos “yeah yeah yeah”, de músicas como She Loves You, inspiraram o nome do estilo.

O Iê iê iê surgiu tímido, com bandas de mpb e samba que aos poucos substituíam violões por guitarras elétricas e pianos por órgãos eletrônicos. Ganhou força mesmo com a Jovem Guarda, programa de TV apresentado por Roberto Carlos e seus eternos parceiros, Erasmo e Wanderléia. A Jovem Guarda, não preciso dizer, foi uma bomba que definiu a juventude daquela época, a década de 60.

Todo mundo cresceu vendo Roberto Carlos na TV, não dá pra negar que se trata de um mito, daqueles poucos artistas que se tornam uma lenda, um personagem e até mesmo uma caricatura. Mesmo que isso muitas vezes seja ruim, é a irrefutável prova de uma carreira de sucesso. Há muito tempo Roberto é desdenhado, devido a seu contrato cômodo e mercenário com a Rede Globo, a sua religiosidade medonha, a suas superstições e manias bizarras, hoje um pouco mais respeitadas depois que ele assumiu se tratar de um transtorno psicológico, e mais ainda ao prestígio artístico que suas canções há mais de vinte anos não alcançam. Toda obra de Roberto realmente valorizada pertence aos anos 60, 70 e à primeira metade dos anos 80. Depois disso, ficou bem complicado.

Não fosse Raul Seixas ou Arnaldo Baptista, seria Roberto o rei do rock nacional. O problema é que o cantor mergulhou na mpb e na canção romântica já nos anos 70. O álbum “O inimitável”, de 68, já denunciava a transição com “Eu te amo, te amo, te amo”, e “As canções que você fez pra mim”. Os álbuns homônimos e anuais, a partir de 69 (agora com o fim do programa Jovem Guarda), fizeram de Roberto um outro tipo de artista, não menos importante. Alguém que chegou a bater os Beatles em vendagem na América Latina e ganhou alguns Grammys (dois deles agora na década de 2000, pra quem achá-lo desimportante nos tempos atuais).

É. Roberto merece nossa consideração e por isso o coloco aqui, no meu humilde Caralho, tentando endossar as homenagens recentes pelos seus 50 anos carreira. Torço o nariz para muitas de suas posturas e canções, mas admito que cantarolo as boas letras do passado e tenho muita curiosidade por esse homem que canta para o Papa, mas se declara favorável ao casamento gay. Roberto tem todas as contradições de uma grande estrela.

sábado, 30 de maio de 2009

Caleb Followill

O Kings Of Leon é dessas bandas americanas que só fazem sucesso na Inglaterra, o que pra alguns é sinal de mediocridade, pobreza, falta de colhões, e pra outros é a incontestabilidade do talento e da vanguarda. Afinal, a Inglaterra tem os Sex Pistols e os EUA, a Britney Spears.

A coisa indie, a estética que hoje, como me ensinou um garoto de 15 anos, explode distorcida numa tribo autodenominada não por acaso de “from UK”, tem na Inglaterra o seu reduto, a alternativa do pensamento inglês de se expressar longe da bizarrice capitalista que tanto caracteriza os Estados Unidos – e não tem vergonha em transformar qualquer arroto na voz mais bem paga da indústria do entretenimento –, se protegendo no chavão de que o que é bom é para poucos (tomando como parâmetro dimensões geográficas).

Kings Of Leon vem nesse embalo, assim como seus compatriotas da pop Scissors Sisters, que alegam não fazer sucesso na terra natal por serem “abertamente gays”. Entretanto, o KOL não é gay, muito pelo contrário, são mocinhos do interior, filhos de um pastor evangélico, que cresceram tocando em igrejas, cujos álbuns sempre trazem alguma referência à sua história religiosa e seu som tenta, ou tentava aludir às tradições do homem conservador, de família, “do campo”. Teria a Inglaterra se rendido à América conservadora ou os rapazes do KOL é que não são exatamente o que parecem ser?

Eu confesso que achava a pinta de moçoilos interioranos e antiquados bem sexy, numa declarada banalização do que é conservador. Hoje um homem tradicional desceu ao nível do fetiche e sobrevive sendo um objeto. É quase como o que me leva a ter um tesãozinho pelo Serj Tankian e sua ascendência de homem-bomba, e até pelo grotesco Kid Rock, e até pelo Chorão. Homens-machões, homens-objeto. É como chupar Mahmoud Ahmadinejad pra depois jogá-lo de comida aos poodles.

Mas aparência é só aparência, e, embora o histórico dos rapazes do KOL, eles se mostraram até bem fofinhos. Meio safadinhos, mas fofinhos. Tanto que há quem diga que não passem de uma boy band disfarçada. Não por acaso, todas as faixas dos seus primeiros álbuns foram escritas pelo produtor Angelo Petraglia, e tudo nos meninos, dizem, é muito bem dirigido. Talvez a mudança drástica no visual e no som do último disco, Only by The Night (2008), pra enfim conquistar os EUA, seja um sinal claro disso. O álbum traz um abismo de estilo do primeiro, Youth and Young Manhood (2003), que flertava mais com o “country rock”. Agora estão mais pops, mais urbanos, mais Nova York e Londres ao mesmo tempo. Isto não é ruim, o álbum é ótimo, não me canso de ouvir. Closer, Use Somebody e Sex on Fire são canções fantásticas, mas é como se fossem de outra banda, tão distantes de Red Morning Light e Wasted Time. E os meninos, antes bigodudos, cabeludos, botas de cowboy, agora são lisos, sarados, tchutchucos.

Caleb é o vocalista e um dos guitarristas. Tem uns agudos meio bizarros, mas conquista pela beleza desajeitada e até pelo encanto do seu olhar ingênuo e vesguinho. O cara cata umas minas aí, é fotografado bebendo, canta umas safadezas vez em quando, uns trocadilhos com a palavra “pistol”, mas é lindo, num sentido mais amplo da palavra. E já é um rockstar. O álbum de estréia foi tido pela imprensa inglesa como um dos dez melhores dos últimos dez anos (tipo assim, desde os Strokes, rs), sua banda ganhou o adjetivo de “notável” do pegador Elton John, que adora flertar com mocinhos maus (cadê o Eminem, falando nisso?), e excursiona com gente de peso como U2 e Bob Dylan, além de ser citada como uma das favoritas de super cults como Chrissie Hynde, do Pretenders. Não precisa de mais nada, né? Ê, lá em casa!